:: 10 ANOS DA GRANDE SAFRA DE 1999. PARA CELEBRAR ... - 29/05/2009 ::

SIM, NO BRASIL SE FAZIA VINHO DE GUARDA JÁ NO MILÊNIO PASSADO...

PARA CELEBRAR SAFRA MEMORÁVEL, BON VIVANT PROMOVEU DEGUSTAÇÃO DE VINHOS DE 1999

E não é que alguns exemplares de vinhos brasileiros da safra 1999 teriam condições de ir além da prosaica tarefa de virar o século e o milênio – já que bastava esperar pelo 1º de janeiro de 2001?
Aliás, de ir bastante além, enfrentando com bravura toda uma década vindoura? Pois isso foi o que degustação especial promovida pela revista Bon Vivant, na noite de 16 de março, com oito produtos da memorável vindima, comprovou. Para a prova, realizada no Restaurante e Armazém Canta Maria, em Bento Gonçalves, nomes de respeito no mundo vitivinícola nacional e enófilos experientes foram convidados.

A degustação, feita ‘às cegas’ – sem identificação do que se estava bebendo –, corroborou, em grande medida, percepções e prognósticos lançados desde que vinhos da festejada safra começaram a chegar ao mercado.

Nesse sentido, o grande destaque foi um produto já cantado em prosa e verso... Um exemplar bastante conhecido – pontuado, em agosto de 2008, pelo bemconceituado site Notas de Degustação, com 94/100, em prova em que o dito “derrubou clássicos sulamericanos”. Trata-se do Lovara Grande Reserva Cabernet Sauvignon. Na avaliação dos convidados de Bon Vivant, o vinho – aclamado como o melhor provado antes mesmo da comprovação estatística disso, com a tabulação das notas atribuídas –, por sua mediana (88/100), até poderia receber Medalha de Ouro em importantes concursos internacionais.
A cor vermelho-rubi profundo, com reflexos violáceos – ótima, considerando a idade do vinho –, a riqueza aromática (remetendo a passas pretas e geleia, além das notas marcantes de carvalho e de tostado, cacau, café e tabaco), o excelente ‘ataque’ inicial, adocicado, seguido de um paladar equilibrado, marcado por taninos macios, e a muito boa persistência à boca foram atributos do produto ressaltados pelos degustadores.

Outra estrela da noite foi o também aclamado, desde seu lançamento, Pizzato Merlot. Apesar da estrutura para envelhecimento menor inerente à casta – em relação a um Cabernet Sauvignon –, o varietal atingiu pontuação (85/100) que o credenciaria a também levar Ouro, dentro do que recomenda para concursos a Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV). A coloração vermelho-rubi, de média a alta intensidade, o olfato lembrando frutas vermelhas (cassis e amoras), passas, tostado e especiarias (canela) e a boa estrutura de boca, ‘redonda’, com uma agradável acidez, foram
algumas características do produto evidenciadas.

Muito pouco abaixo, o Miolo Lote 43 / Cabernet Sauvignon – Merlot apresentou atributos para receber ‘Prata’, com 84/100 pontos. Uma excelente cor rubi-profundo, com reflexos violáceos, as notas aromáticas de passas, carvalho, chocolate, coco e algo de azeitona – a sugerir ataque por leveduras Brettanomyces, característica apreciada por alguns enófilos, posto que associada a antigos vinhos espanhóis –, o muito bom paladar, complexo, maduro e equilibrado, e a boa persistência à boca foram aspectos louvados pelos avaliadores.

A degustação também apontou, claramente, um ‘segundo escalão’, formado por vinhos ainda com virtudes (com notas de 80 a 82/100, ou seja, ainda suficientes para a concessão de Prata, pelos critérios da OIV). Em ordem decrescente de pontuação, compuseram o grupo Don Laurindo Assemblage (um corte de Cabernet Sauvignon, Merlot e Tannat), Casa Valduga Premium Cabernet Sauvignon e Aurora Millésime Cabernet Sauvignon.

As outras duas amostras provadas (um varietal Cabernet Franc e outro Merlot) ficaram com medianas abaixo de 79 pontos.
Conclusões - Para além das inferências que a mera hierarquização (que, se admita, para ser precisa, certamente carece de um ‘convívio de grupo’ impossível de ser atingido em um primeiro encontro) possa carregar, a experiência capitaneada por Bon Vivant apontou alguns aspectos interessantes.

O primeiro deles pôde ser comprovado nos próprios rótulos das amostras degustadas: sua graduação ficava entre 11,5% e 12,8% vol., ou seja, em 1999, a cadeia produtiva da uva e do vinho do Brasil estava estruturada para a elaboração de vinhos de teor alcoólico menor do que é praxe na vitivinicultura de alto padrão da atualidade (acima de 13%). É praticamente óbvio, mas é necessário observar que, principalmente por conta da evolução vitícola – possibilitando a obtenção regular de matéria-prima com níveis mais altos de açúcar e maior aptidão para a elaboração de produtos finais mais longevos –, é certo que hoje, em uma safra com idêntico comportamento ao de 1999, os produtos seriam superiores.

Em tal sentido, tanto quanto a diferenciação, em relação à atualidade, do potencial alcoólico, o painel permitiu captar certa tipicidade de época: um estilo semelhante de elaboração, um foco, por exemplo, análogo quanto à finalidade da uva Cabernet Sauvignon. De igual modo, pode-se assinalar a percepção de que, eventualmente, nem todos os vinhos degustados tenham sido elaborados com o propósito de alcançar longevidade.

De resto, não se pode falar em um consenso quanto à ‘curva de ascendência’ dos três vinhos de maior destaque na degustação (o Lovara Grande Reserva Cabernet Sauvignon, o Pizzato Merlot e o Miolo Lote 43 / Cabernet Sauvignon – Merlot): para um, todos estavam em seu apogeu; para outro, todos já passaram de seu ponto ótimo de consumo. De qualquer forma, se suportariam ou não mais dez anos de guarda, é uma questão difícil de ser respondida. Bon Vivant espera poder ajudar a respondê-la, em 2019...

A operacionalização - A degustação promovida por Bon Vivant contou com a análise de vinhos oferecidos pelas próprias vinícolas. Eles foram abertos e decantados uma hora e meia antes do início da prova. A avaliação seguiu os critérios recomendados internacionalmente para atividades do gênero – a degustação ‘às cegas’, em taças padrão ISO e com fichas de anotação apropriadas (no caso, as utilizadas na Avaliação Nacional de Vinhos, promovida pela Associação Brasileira de Enologia). Participaram dela:

Degustadores participantes:

Adão Villaverde - deputado estadual (PT-RS), enófilo, participa como degustador da Avaliação Nacional de Vinhos desde a instituição do evento, em 1993;
Antonio Czarnobay - enólogo, expresidente da Associação Brasileira de Enologia (ABE) e exvice da União Internacional de Enólogos (UIOE);

Carlos Abarzúa – enólogo, presidente da ABE, jurado em concursos internacionais de vinhos;

Darci Dani – enólogo, diretor-executivo da Associação Gaúcha de Vinicultores (Agavi), jurado em concursos internacionais;

Felix Henrique De Nadal Almeida – engenheiro, enófilo, associado e exmembro da diretoria da Sociedade Brasileira dos Amigos do Vinho (SBAV) RS;

Jairo Monson de Souza Filho – médico, enófilo, associado à Confraria do Vinho de Bento Gonçalves, jurado em concursos internacionais;

Mauro Celso Zanus – pesquisador da Embrapa Uva e Vinho, diretor de Degustação da ABE, jurado em concursos internacionais.




* Texto assinado pelo jornalista Giovani Capra publicado originalmente na edição 121, de abril de 2009, da Revista Bon Vivant, de Flores da Cunha, RS. Disponível no site www.bonvivant.com.br
     
 
 
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